Como uma dentista virou Gerente Uniclass Digital no Itaú (e não, não foi sorte)
Uma dentista que abandonou a odontologia e entrou no Itaú como Gerente Uniclass Digital. A história de transição de carreira mais inesperada que já vi.
Por Karina Sant'Anna, mentora de carreira bancária, com mais de 10 anos no banco.
A Nathalia Moura Prado é dentista. Mãe. Sonhadora. E hoje, Gerente Uniclass Digital do Itaú.
A história dela não é sobre sorte. É sobre o que acontece quando alguém decide de verdade que vai chegar onde quer: e faz o que for necessário para isso, por quanto tempo for necessário.
Eu acompanhei essa trajetória de perto. E até hoje é uma das histórias que mais me move.
O ponto de virada
A Nath tinha três empregos e um bebê de colo. Trabalhava muito, sobrevivia, mas sentia que aquilo não era o destino dela.
Ela gostava de gente. De ouvir. De orientar. Só não tinha percebido ainda que isso tinha nome, escuta ativa, e que era uma das principais habilidades da área comercial.
Quando amigos começaram a migrar para o banco e ela foi entendendo como o mercado financeiro funcionava por dentro, um sonho surgiu tímido: será que era para ela também?
Ela achava que banco era sonho para os outros. Não para uma dentista sem experiência comercial.
Ela tentou assim mesmo.
Começou do zero. Estudou. Tirou a C-Pro R. Deu o primeiro passo no mercado financeiro com resiliência e muita fé: sem saber ainda se ia dar certo, mas decidida a descobrir.
Os nomes mudaram em 2026: a CPA-10 virou CPA, e a CPA-20 e a CEA viraram C-Pro R e C-Pro I. Eu explico tudo no guia das certificações ANBIMA.
A gente se encontrou por aqui, e eu topei o desafio junto com ela.
O processo de tradução
Começamos a traduzir a trajetória da Nath para o banco. Ajustar o LinkedIn. Reescrever o currículo com a linguagem certa. Identificar as skills transferíveis da odontologia para o comercial bancário, e eram mais do que qualquer um imagina.
Dentista atende pessoa em situação de vulnerabilidade, muitas vezes com medo, com dor, com resistência ao procedimento. Sabe explicar coisa complexa de forma simples. Sabe gerenciar expectativa. Sabe criar confiança em pouco tempo.
Treinamos pitch comercial. Desenvolvemos abordagem de vendas. Estudamos portfólio bancário. A Nath gravava tudo que a gente conversava e ficava ouvindo antes de dormir. Naquele detalhe já dava para ver o foco. 🤌🏻
As mais de mil abordagens
E aí vem a parte que separa quem quer de quem QUER de verdade.
A Nath não era "o perfil ideal" para o cargo de Gerente Uniclass Digital. Essa vaga normalmente é direcionada para quem já tem bastante experiência bancária. Mas ela não deixou isso paralisá-la.
Ela adicionou todos os gestores de São Paulo. Todos. Mandava mensagem personalizada para cada um. Uma vez. Se não respondiam, mandava de novo depois de cinco dias. Depois de novo. Depois de novo.
Mais de mil abordagens.
Não estou exagerando.
Começou a ser chamada para entrevistas toda semana. E cada entrevista que não dava ensinava algo que ela aplicava na seguinte. Ela não encarava o não como rejeição, encarava como dado. O que essa entrevista revelou que eu preciso ajustar?
Até que uma entrevista específica chegou: Gerente Uniclass Digital.
Confesso que meu coração gelou. Porque normalmente é uma vaga que exige anos de experiência bancária.
Mas ela tinha fé.
Fé daquela que faz você acreditar junto. Ela me disse uma vez: "se Deus está mandando as entrevistas, é porque Ele sabe que eu sou capaz."
Eu confiei nela. E confiei em Deus.
A primeira vez não passou. A segunda também não.
Na terceira, quando saiu da sala, ajoelhou no chão, chorou e disse que sentiu paz. Que sentiu que aquela era dela.
Era mesmo.
O que a trajetória da Nath ensina
Hoje, com três meses como Gerente Uniclass Digital no Itaú, a Nath manda mensagens contando o quanto ama o que faz, o quanto a vida virou do jeito certo.
O que a história dela ensina não cabe numa lista de dicas.
Mas tem três coisas que ficam:
A trajetória diferente pode ser o diferencial, não o obstáculo. A Nath não entrou apesar de ser dentista. Entrou carregando tudo que a odontologia formou nela: paciência, escuta, confiança, capacidade de explicar o complexo de forma simples. O banco enxergou isso. Ela ajudou o banco a enxergar isso.
Persistência com aprendizado é diferente de insistência sem ajuste. Mais de mil abordagens não são repetição do mesmo. São mil iterações, cada uma um pouco melhor do que a anterior. A Nath usou cada não para refinar, não para desanimar.
Fé e preparo não são opostos. A Nath acreditava que ia acontecer. E estudou, treinou, ajustou, tentou, levantou e tentou de novo até acontecer. A fé não substituiu o trabalho. Ela sustentou o trabalho nos momentos em que o trabalho sozinho não era suficiente para continuar.
Como usar essa história se você está tentando entrar no banco
Se você está lendo isso com uma trajetória fora do banco e achando que não tem chance, a Nath é o contra-argumento mais concreto possível.
O que funcionou para ela:
- Traduzir a experiência anterior para a linguagem bancária: não esconder, mas reposicionar
- Tirar a certificação antes de precisar, a C-Pro R abriu portas que não abriam sem ela
- Abordagem ativa e personalizada: não esperar a vaga aparecer na Gupy, ir atrás das pessoas
- Aprender com cada entrevista: encarar o não como dado, não como veredicto
- Persistir sem perder a inteireza, mais de mil abordagens com a mesma energia e presença
O banco não está procurando o candidato perfeito. Está procurando o candidato certo. E às vezes o candidato certo é justamente quem ninguém esperava. 🌟
Por que essa história importa para além da Nath
A trajetória da Nathalia importa não só para quem está tentando entrar no banco vindo de outra área. Importa para todos que já decidiram que algo é impossível antes de tentar.
A Nath tentou onde teria sido razoável não tentar. Persistiu onde seria compreensível desistir. Aprendeu onde seria fácil se sentir incapaz.
E chegou onde parecia impossível chegar.
O banco não estava esperando por ela. Ela foi até o banco, repetidas vezes, com cada vez mais preparo, até que o banco reconheceu o que estava na sua frente.
Esse é o caminho real. Não é o mais fácil. Mas é o que funciona para quem está disposto a percorrê-lo.
Toda vez que a Nath manda mensagem contando que ama o que faz, eu agradeço por ter acompanhado essa história. E fico feliz que ela esteja aqui para que outras pessoas possam se ver nela. 🙌🏻
O que qualquer profissional de saúde tem que o banco valoriza
A Nath não foi o único caso de profissional de saúde migrando para o mercado bancário. É mais comum do que parece, e faz todo sentido quando você entende o que a área de saúde forma.
Médico, dentista, enfermeiro, psicólogo: todos aprendem a atender pessoa em situação vulnerável com empatia e clareza. Aprendem a explicar procedimento complexo de forma que o paciente entenda e confie. Aprendem a gerenciar expectativa. Aprendem que nem sempre o cliente quer ouvir o que precisa ouvir, e que a forma de entregar essa informação é tão importante quanto o conteúdo.
Essas habilidades são exatamente o que o segmento Uniclass e o Personnalité precisam. Cliente de alta renda não quer vendedor. Quer consultor. E consultor é o que profissional de saúde aprende a ser desde o primeiro dia de prática clínica.
A Nath não precisou apagar a dentista para virar banqueira. Precisou aprender a apresentar o que a dentista formou nela com a linguagem certa para o banco. E foi isso que fez a diferença. 🌟