Como explicar produto bancário: se a sua vó não entende, você NÃO está vendendo direito
Storytelling e simplicidade: como explicar produtos financeiros do jeito que seu cliente realmente entende.
Por Karina Sant'Anna, mentora de carreira bancária, com mais de 10 anos no banco.
Um dia pedi para o ChatGPT explicar o que é um Consórcio para uma senhora de 80 anos. Estava testando a capacidade de adequar linguagem e conceitos bancários para diferentes públicos.
Ele respondeu assim:
"Vó, lembra quando a senhora e as vizinhas faziam uma vaquinha todo mês pra ajudar uma de vocês a comprar alguma coisa cara, tipo um fogão novo, uma TV, ou até o enxoval da filha que ia casar? Cada mês era a vez de uma. Consórcio é assim: todo mundo paga junto, e cada mês uma pessoa é sorteada ou chamada pra receber o bem."
Simples. Direto. Sem Banquês.
Os olhinhos dela brilharam. Ela entendeu e disse: "ahhh, então é isso! Nunca ninguém tinha me explicado assim." 🥹
E isso me fez pensar sobre o maior erro que a gente comete nas agências sem perceber.
O erro que a maioria comete sem perceber
Na tentativa de parecer profissional, a gente fala difícil demais. E, sem perceber, transforma uma conversa que deveria ser leve em um monólogo confuso onde só um lado entende.
Tentamos parecer inteligentes. Mas acabamos soando distantes. E a conexão com o cliente se perde exatamente aí.
Nas agências físicas, onde boa parte do público ainda são idosos, pessoas mais simples, trabalhadores que nunca tiveram contato com produto financeiro, isso deixa de ser estratégia de venda e passa a ser humanidade.
Nossos clientes não têm obrigação nenhuma de entender o dialeto financeiro que usamos no dia a dia. E se o cliente não entende, a culpa não é dele. É nossa.
O segredo que muda tudo: storytelling
O bom atendimento não é o que impressiona. É o que aproxima. É aquele que acolhe. Que respeita o tempo e o ritmo do outro.
E aí entra o segredo que repito sempre: storytelling.
Contar histórias simples. Puxar pela memória afetiva. Usar exemplos do dia a dia, da vendinha da esquina, da caderneta de fiado, da vizinha que sabia tudo sobre todo mundo.
Porque vender bem é isso. É gerar confiança. É fazer o cliente se sentir acolhido, não perdido. É sair da reunião sentindo que foi entendido, não que recebeu uma apresentação.
O dicionário da vó: produtos bancários explicados de forma humana
O ChatGPT ajudou a traduzir cada um deles, e o resultado virou o dicionário que está aqui embaixo.
🏦 CDB
"É como quando a senhora emprestava um dinheirinho pro tio João, e combinava dele devolver um tempo depois com um 'agrado' junto. No CDB, a gente empresta pro banco e ele devolve com um lucro no final."
💳 Cartão de crédito
"Lembra quando a senhora comprava fiado na mercearia e pagava no fim do mês? O cartão é igualzinho. A diferença é que, se atrasar, o banco cobra caro, hein!"
☂️ Seguro de Vida
"Sabe aquele guarda-chuva que o vô guardava só pra emergência? Seguro de vida é igual: a gente paga pra garantir proteção se algo ruim acontecer. Se nada acontecer, ótimo! Mas se chover forte, ele tá ali pra proteger quem a gente ama."
🏠 Crédito Imobiliário
"É como pedir emprestado pra alguém de confiança para comprar uma casa, e devolver aos poucos, todo mês, com um pouco de juros. O banco empresta o dinheiro agora, você vai pagando com calma, e no final a casa é sua."
📈 Previdência Privada
"Lembra quando o vô guardava dinheiro embaixo do colchão pra velhice? Previdência é a versão moderna disso, só que o dinheiro vai rendendo ao longo do tempo em vez de ficar parado."
🔄 Débito Automático
"É como deixar autorizado pro banco pagar as contas da senhora sozinho todo mês, sem precisar ir até a agência ou lembrar da data. A senhora combina com o banco, e ele cuida do resto."
Por que isso importa além da venda
Além de fechar mais, a linguagem simples faz outra coisa que nenhuma técnica de vendas replica: cria vínculo.
O cliente que entendeu o que você falou confia em você. O cliente que confia volta. O cliente que volta indica. E a indicação é o melhor tipo de prospecção que existe, porque chega com a confiança já construída pela pessoa que te recomendou.
Linguagem acessível não é fazer o cliente se sentir simples. É fazer o produto se sentir possível.
E quando o produto parece possível, a venda acontece naturalmente: não como pressão, mas como solução.
Como praticar a explicação simples
Existe um exercício que recomendo para qualquer profissional bancário que quer melhorar a comunicação com clientes leigos: a cada semana, escolha um produto da carteira e tente explicá-lo em 3 frases, sem usar nenhum termo técnico.
Se você não consegue explicar sem jargão, você ainda não entendeu o produto o suficiente para vendê-lo com convicção.
E se você consegue, você tem um argumento de venda que vai funcionar com qualquer cliente, da vó de 80 anos ao executivo de 40. Porque clareza não tem público específico. Todo mundo prefere entender.
O que acontece quando você não simplifica
Existe um custo real para o atendimento que não simplifica.
O cliente que não entendeu o produto não fecha. Ou pior: fecha sem entender, e cancela quando percebe que não era o que imaginava. Isso gera cancelamento, reclamação, NPS baixo e um cliente que vai contar para os amigos que foi mal atendido.
A linguagem complexa não protege o profissional, expõe. Mostra que ele precisa do jargão para parecer competente, em vez de ter a competência para dispensar o jargão.
O profissional que consegue explicar qualquer produto em linguagem simples demonstra dois níveis de domínio: domínio do produto, e domínio de comunicação. São competências complementares, e as duas aparecem na avaliação de desempenho, no NPS e na fidelização de carteira.
Teste com a sua vó. Ou com o seu filho. Ou com alguém que não tem contato nenhum com mercado financeiro. Se eles entenderem, você está pronto(a) para atender qualquer cliente. 🫶🏻 E se for treinar isso pra uma entrevista, o passo a passo está no guia da dinâmica de vendas no banco.
O cliente que mais precisa de você fala a língua da vó
Existe um segmento de cliente que é sistematicamente mal atendido nas agências bancárias: os mais velhos, os menos escolarizados, os que nunca tiveram conta antes, os que chegam com medo de serem enganados porque já foram ou porque alguém que conhecem foi.
Esse cliente precisa de você mais do que qualquer outro. Porque ele tem menos capacidade de comparar, menos repertório para questionar, menos confiança para pedir para explicar de novo.
E quando você atende esse cliente com paciência, com linguagem acessível, com exemplos que fazem sentido para a vida dele, você não está só fechando uma venda. Você está sendo a experiência que ele vai contar para os filhos, para os netos, para os vizinhos.
O cliente de alta renda escolhe banco por produto e taxa. O cliente simples escolhe banco por pessoa. Ele volta pelo gerente que tratou ele bem, que explicou sem ter pressa, que não o fez se sentir burro por não entender na primeira vez.
Essa fidelidade tem um valor que nenhuma campanha de produto consegue comprar.
Se você quiser vender melhor, atender melhor e se conectar de verdade com qualquer cliente: explique como se estivesse explicando para sua vó. Com carinho, paciência e simplicidade.
Quem domina essa habilidade domina qualquer carteira, porque consegue atender com a mesma qualidade o cliente de 25 anos e o de 75. Isso é o que torna um profissional verdadeiramente completo no banco. 🫶🏻
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